Rua Tavares Bastos - o início de uma pesquisa

Tendo em vistas as publicações de reportagens recentes sobre o projeto de construção de um mural na rua Tavares Bastos, que vc pode ver aqui e aqui, no bairro do Catete, publico aqui uma pesquisa que fiz para os mentores desse projeto, o Preserva Catete, encaminhada em 2025. Ainda há muito o que fazer, recolher informações de moradores, confirmar essas informações, mas o que já se tem disponível mostra a importância dessa rua para a história do Bairro e da cidade do Rio de Janeiro.  


Rua Tavares Bastos 

 

O nome atual da rua é uma homenagem ao advogado, político, jornalista e deputado nos tempos do Império Brasileiro, o alagoano Aureliano Cândido Tavares Bastos (1839-1875), muito conhecido por sua defesa do federalismo em oposição ao centralismo do governo imperial. Era irmão do senador Cassiano Cândido Tavares Bastos (1844-1919), que exerceu seu mandato no início do período republicano, entre 1890 e 1892.  

Paulo Berger (1989, p. 61-62) afirma que a rua foi aberta pouco antes de 1859, e foi prolongada diversas vezes, com cada prolongamento recebendo diversos nomes diferentes. O autor cita os nomes antigos: Rua do Sá, Rua Cruzeiro do Sul, Rua Setembrina, Rua Guilhermina, Rua Amazonas e, a partir da decisão da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na sessão de 2 de março de 1863, passou a ser chamada de Rua Princesa Imperial, em homenagem à Princesa Isabel. Berger afirma ainda que antes de 1900 a rua recebeu o nome atual. 

Em 1871 foi publicada a obra Plan of the city of Rio de Janeiro, Brazil. Uma planta elaborada sob o comando do engenheiro Edward Gotto, presidente da Rio de Janeiro City Improvment, contratada para realizar drenagem e esgotamento da cidade do Rio de Janeiro. Ali pode-se ver o traçado e a numeração das ruas da cidade do Rio de Janeiro no ano de 1866, quando o levantamento foi realizado. No mapa 27 está a Rua da Princesa Imperial da época. 


Mapa

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Plan of the city of Rio de Janeiro : Brazil. Gotto, Edward. 1871. Disponível em cart326448.pdf. 

 

A obra Nova Numeração dos prédios do Rio de Janeiro, de João Cruvello Cavalcanti, editada por ordem da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro originalmente no ano de 1878, recebendo algumas novas edições nos anos seguintes, foi reeditada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro na coleção Memórias do Rio em 1979. Nela, pode-se ver o relatório final do trabalho de renumeração dos prédios da cidade do Rio de Janeiro, realizado entre o final de 1873 até o final de 1875. No volume II, páginas 1050 e 1051, consta a numeração da rua, ainda chamada Rua da Princesa Imperial, e um pequeno histórico do local: 

 

Começa esta rua na da Pedreira da Candelária e termina no alto do morro denominado Nova Cintra. 

Sendo sua direção em zig-zag pelo morro acima, forão-lhe dados (em sua abertura) diversos nomes, conforme os lançantes, taes como Sá, Cruzeiro do Sul, Setembrina, D. Guilhermina, Amazonas, etc., nomes estes que desapparecerão, ficando apenas o actual para toda a rua.  

Rio, janeiro de 1879, - O encarregado da numeração, J. C. Cavalcanti. 

 

A rua foi muito utilizada por fotógrafos para realizar fotos panorâmicas na virada do século XIX para o XX. Marc Ferrez utilizou-se especialmente da rua para fotografar os bairros da Glória, Catete, Flamengo e Laranjeiras. (VER site Map) 

 Foto preta e branca de uma cidade

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Bairros da Glória e do Catete vistos da Rua Princesa Imperial, atual Tavares Bastos. Foto de Marc Ferrez. Provavelmente antes de 1890, certamente antes de 1896. Disponível em Untitled 

 

Logo após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, diversos nomes de ruas da cidade do Rio de Janeiro foram trocados para homenagear pessoas ligadas ao movimento republicano ou aqueles que possuíam ideias valorizadas pelo novo regime. As ruas que possuíam referências ao antigo regime imperial foram os principais alvos da troca de nomenclatura. A defesa de Tavares Bastos do federalismo – uma das principais bandeiras do novo regime republicano brasileiro, pode ter influenciado a troca do nome da rua. E, possivelmente, ter sido irmão de um senador da república pode ter facilitado a homenagem. 

No final da rua se encontra a comunidade Tavares Bastos, que se tornou notória nos anos 2000 por ser uma das únicas comunidades do Rio de Janeiro que não era dominada pelo crime organizado.  

Desde os anos 1960 o local foi visto com grande potencial por sua vista da Baía de Guanabara. O atual quartel do Bope, no alto da comunidade, era originalmente, um projeto de Eduardo Guinle para criar um clube para executivos, o “Clube do Parque”. O projeto é do arquiteto Mauricio Roberto, levantado pela construtora Civia S.A. e Pires e Santos entre 1965 a 1969. (Jornal do Brasil, 1/4/1984, primeiro caderno p. 18). O governo do Estado arrematou o prédio abandonado em 1985 para criar uma escola (Jornal do Brasil, 19 de dezembro de 1985, p. 6). No ano de 2000 foi anunciada a mudança do BOPE para o prédio, então denominado “esqueleto”. (Jornal do Brasil, 10/12/2000, Cidade, p. 21). A nova sede foi inaugurada em 28 de dezembro daquele ano (idem, 29/12/2000, Cidade p. 17). 

Em 1988, uma grande tempestade de verão causou muitos estragos no Rio de Janeiro e na comunidade da Tavares Bastos. O Jornal do Brasil de 22/2/1988 (Cidade, p. 4) relatou: 

 

Toda uma favela desapareceu levada pela força das águas no Catete. Pequena, a Tavares Bastos teve desmoronados os seus 50 barracos e os desabrigados foram levados para a 4ª Região Administrativa. 

 

O local foi cenário de inúmeras produções cinematográficas brasileiras e estrangeiras. Ali se encontram atrações como o The Maze, uma casa de show, mirante e residência artística, criadas por um inglês que se apaixonou pela vista do local ainda na década de 1970. Destaca-se também a ação da Rede Nami, que faz ações sociais e intervenções artísticas na região. 

Dentre os bens tombados e protegidos, no nível municipal, há o calçamento pé-de-moleque em vila na Rua Tavares Bastos, 78. Na Vila Angelina, há diversas casas protegidas pela Área de Proteção do Ambiente Cultural do Catete – APA Catete, bem como diversos imóveis na mesma rua.  

 

 

Referências 

CAVALCANTI, J. Cruvello. Nova numeração dos prédios da Cidade do Rio de Janeiro. Coleção Memória do Rio 6 – Volume 2. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1979) p. 1050-1051. 

BERGER, Paulo. Dicionário histórico das ruas do Rio de Janeiro: da Glória ao Cosme Velho. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989. P. 61-62. Disponível em : DICIONÁRIO HISTÓRICO DAS RUAS DO RIO DE JANEIRO - GLÓRIA AO COSME VELHO - PAULO BERGER by Luciano Romera - Issuu. Acesso em 23/12/2024 

Brazil. Gotto, Edward. Plan of the city of Rio de Janeiro:  1871. Disponível em cart326448.pdf. 

 

Jornal do Brasil, 1/4/1984, primeiro caderno p. 18 

Jornal do Brasil, 19 de dezembro de 1985, p. 6 

Jornal do Brasil, 10/12/2000, Cidade, p. 21 

Jornal do Brasil, 29/12/2000, Cidade p. 17 

Jornal do Brasil de 22/2/1988 (Cidade, p. 4) 

 

 

 

 

 

 


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